CHACINA DO TANQUE DO URUBU: Industrial e três filhas foram assassinados e tiveram os corpos carbonizados dentro de um carro em Feira de Santana
Por LÉO DE TOPÓ
Na manhã de 23 de setembro de 1987, Feira de Santana amanheceu diante de uma das páginas mais sombrias de sua história. Em uma área conhecida como Tanque do Urubu, moradores encontraram um Fiat Spazio completamente destruído pelas chamas. Dentro do veículo estavam os corpos carbonizados do industrial Vercelêncio Ferreira da Silva, de 45 anos, e de suas três filhas: Silvânia, de 13 anos, Isadora Cristina, de 12, e Natália, de apenas 10 anos.
O crime, marcado pela extrema violência, gerou revolta em toda a Bahia e mobilizou uma das mais complexas investigações policiais da época. Apesar de os executores terem sido identificados, uma pergunta permanece sem resposta até hoje: quem mandou matar a família?
A última viagem
Horas antes da tragédia, Vercelêncio havia adquirido um Fiat Spazio novo. Após concluir a compra, retornou para casa, no bairro Kalilândia, onde deixou a esposa, Terezinha Ramos Ferreira da Silva. Em seguida, saiu acompanhado das três filhas.
Segundo relatos da investigação, a filha mais velha, Silvânia, chegou a desistir do passeio. No entanto, a mãe insistiu para que ela acompanhasse o pai e as irmãs. Aquela seria a última vez que a família seria vista com vida.
Ao longo da noite, familiares iniciaram buscas em hospitais, delegacias e entre conhecidos. Na manhã seguinte, veio a confirmação da tragédia.
Uma execução brutal
A perícia revelou que as vítimas não morreram no incêndio. Vercelêncio foi assassinado a tiros. Silvânia e Isadora também foram baleadas. Já Natália, a mais nova das irmãs, morreu após sofrer agressões físicas.
Depois dos assassinatos, os criminosos colocaram os corpos dentro do automóvel e atearam fogo ao veículo, numa tentativa de destruir evidências e dificultar o trabalho dos investigadores.
A brutalidade chamou a atenção das autoridades desde os primeiros momentos. Para a polícia, o incêndio indicava que o crime possuía características diferentes de um simples assalto.
Investigações cercadas de suspeitas
Nos meses seguintes, diversas linhas de investigação foram abertas. A polícia apurou conflitos familiares, problemas conjugais, desentendimentos comerciais e possíveis ligações do industrial com pessoas influentes da região.
A esposa da vítima chegou a ser investigada, assim como sócios, funcionários e empresários ligados ao círculo de convivência de Vercelêncio. Rumores envolvendo figuras políticas e empresários locais também surgiram durante a apuração, embora nenhum envolvimento tenha sido comprovado.
O caso ganhou contornos ainda mais misteriosos após o desaparecimento de uma testemunha identificada apenas como Elisângelo, que teria relatado a presença de homens suspeitos próximos ao local onde o carro foi incendiado.
Outro obstáculo para a investigação foi a contaminação da cena do crime. Segundo os investigadores, centenas de pessoas passaram pelo local antes da realização da perícia, comprometendo possíveis evidências.
A quadrilha apontada como executora
Com o avanço das investigações, a polícia chegou a uma quadrilha que atuava em Feira de Santana e em outras regiões da Bahia.
O principal suspeito era Márcio Mendonça, conhecido como “Mineirinho”, considerado um criminoso de alta periculosidade. Testemunhas afirmaram que integrantes do grupo comentavam detalhes da execução e que Mineirinho teria participado diretamente dos assassinatos.
Outros homens conhecidos pelos apelidos de Tagarela, Cheringa, Tó e Baixinho também foram apontados como participantes da chacina.
Relatos colhidos durante a investigação indicavam que algumas pessoas do grupo demonstraram resistência à morte das crianças, mas teriam sido ignoradas pelo líder da ação criminosa.
Quem mandou matar?
Ao longo dos anos, diferentes hipóteses foram levantadas. Entre elas, a de que o crime teria começado como um assalto e terminado em execução. Outra linha apontava que Vercelêncio poderia possuir informações comprometedoras envolvendo criminosos e até policiais militares ligados a atividades ilegais.
A prisão de integrantes de uma organização criminosa que contava com policiais reforçou a suspeita de que o industrial pudesse ter sido alvo de uma execução encomendada.
Entretanto, nenhuma dessas teorias foi comprovada de forma definitiva.
Revolta popular
A repercussão da chacina foi imediata. Em outubro de 1987, mais de cinco mil pessoas participaram de uma grande caminhada pela paz em Feira de Santana.
Estudantes, comerciantes, religiosos e moradores ocuparam as ruas da cidade exigindo justiça. O ato se transformou em uma das maiores manifestações populares já registradas no município.
A imagem das três meninas assassinadas marcou profundamente a população e transformou o caso em símbolo da luta contra a violência.
Um mistério sem solução
Embora a Justiça tenha decretado a prisão de diversos envolvidos e os executores tenham sido identificados ao longo das investigações, a autoria intelectual da chacina nunca foi esclarecida.
Muitos dos suspeitos morreram ao longo dos anos sem revelar informações que pudessem apontar quem teria planejado o crime.
Quase quatro décadas depois, a Chacina do Tanque do Urubu continua sendo lembrada como um dos episódios mais cruéis e enigmáticos da história policial da Bahia. O caso permanece cercado por dúvidas e especulações, mantendo viva uma pergunta que atravessa gerações: quem ordenou a morte de Vercelêncio Ferreira da Silva e de suas três filhas?

