Após mais de duas décadas de promessas, cerimônias e anúncios, ato simbólico da primeira estaca reacende o debate: desta vez a ponte sai do papel ou é mais um capítulo da novela?
Por LÉO DE TOPÓ
Tem gente que acredita em Papai Noel. Tem gente que acredita que o Vitória nunca mais vai sofrer. E, pelo visto, ainda há quem ache que o baiano vai cair no mesmo “baratino” da Ponte Salvador–Itaparica.
Em pleno ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarcou na Bahia para participar da cerimônia de cravação da primeira estaca da tão sonhada ponte. Primeira estaca? Quem acompanha essa história já perdeu a conta de quantas “primeiras etapas” essa obra teve.
O evento foi bonito: autoridades sorrindo, máquinas alinhadas, capacetes na cabeça, discursos empolgados e muito flash. Só faltou a ponte.
O baiano já conhece esse roteiro. A cada eleição, aparece uma novidade. Muda o governo, muda o governador, muda a data, muda o orçamento, muda o discurso… só não muda uma coisa: a ponte continua do outro lado da imaginação.
Depois de mais de duas décadas de anúncios, estudos, renegociações e promessas, a população já desenvolveu um instinto de sobrevivência política. Quando vê um palanque perto da Ilha de Itaparica, já pergunta: “Lá vem mais um capítulo da novela.”
Ao lado do governador Jerônimo Rodrigues, do senador Jaques Wagner e do ministro Rui Costa, Lula acompanhou a estaca sendo fincada na areia. A internet, claro, não perdoou. Em poucos minutos, o apelido surgiu: “Ponte Sabor Baratino”.
Porque, convenhamos, fincar uma estaca não diminui a fila do ferry-boat. Não encurta a viagem. Não liga Salvador à Ilha de Itaparica. É como colocar a primeira vela no bolo e dizer que a festa já começou.
E como se o roteiro precisasse de um bônus de humor involuntário, no dia seguinte, durante uma agenda no Rio Grande do Norte, Lula participou da inauguração de um trecho do Ramal do Apodi. O detalhe? A água, que deveria chegar durante a cerimônia, resolveu não comparecer. O presidente explicou que houve um problema no cronograma e, brincando, disse para o povo voltar à meia-noite.
Está difícil saber o que anda chegando primeiro: a água ou a ponte.
Dias antes, Lula também afirmou que a Ilha de Itaparica era um lugar onde as pessoas podiam dormir de janela aberta. A declaração repercutiu porque a região tem registrado episódios recentes de violência e confrontos entre grupos criminosos, segundo registros das autoridades. No fim das contas, o recado de muitos baianos parece ser outro.
Ninguém é contra a ponte. Muito pelo contrário. O sonho é antigo e necessário. O problema é transformar esse sonho em atração de temporada eleitoral.
O povo da Bahia pode até gostar de um bom acarajé, de um samba de roda e de dar boas risadas. Mas achar que vai se empolgar só com estaca fincada na areia? Aí já é baratino demais.
Porque obra não se mede pela quantidade de discursos, nem pela quantidade de capacetes em cerimônia. Obra se mede quando o primeiro carro atravessa a ponte. Até lá, o baiano segue olhando para o mar… e desconfiando de toda “primeira estaca” que aparece em ano de eleição.