União criada para fortalecer partidos diante da cláusula de desempenho tem provocado disputas internas por votos, recursos e protagonismo, colocando em risco a sobrevivência política das legendas menores.
Por: Val Soares, Analista Político
As federações partidárias foram criadas como uma alternativa estratégica para partidos que buscavam preservar sua presença institucional diante do endurecimento da cláusula de desempenho. Na prática, porém, essa união obrigatória por quatro anos tem produzido um efeito colateral nítido: a competição interna feroz entre partidos que, embora aliados formalmente, disputam os mesmos votos, lideranças e recursos.
É nesse cenário que se manifesta o chamado canibalismo político. O termo descreve o fenômeno em que siglas menores, ao se associarem a legendas de maior estatura, acabam perdendo autonomia e capilaridade. Embora a federação some votos para atingir o quociente eleitoral, ela tende a concentrar o comando político e o protagonismo nas mãos da sigla dominante, muitas vezes “devorando” as bases históricas de seus parceiros menores.
Os exemplos mais latentes desse processo podem ser observados nas federações formadas para o ciclo 2022-2026. O Cidadania associou-se ao PSDB; o PCdoB e o PV integram, com o PT, a Federação Brasil da Esperança; e a Rede Sustentabilidade mantém-se federada ao PSOL. Para o eleitor, nas urnas, eles funcionam como um partido único. Para as siglas menores, porém, o desafio é sobreviver à sombra de seus “cabeças de chapa”.
A dificuldade reside na concorrência direta. Nas eleições proporcionais, candidatos de partidos diferentes dentro da mesma federação disputam o mesmo naco do eleitorado. Os dados das recentes eleições municipais de 2024 acendem um alerta sobre esse enfraquecimento institucional. O Cidadania, por exemplo, viu sua base de prefeitos eleitos encolher de 140 em 2020 para apenas 32 em 2024. No mesmo período, o PCdoB passou de 49 para 19 prefeituras, enquanto o PV caiu de 46 para 13 comandos municipais.
Essa redução não é meramente numérica; ela reflete a perda de espaços de poder local que sustentam as candidaturas federais e estaduais. Quando um partido menor não consegue manter suas bases de vereadores e prefeitos, ele entra em 2026 em situação de extrema vulnerabilidade frente aos parceiros de federação que detêm maior estrutura e financiamento.
A disputa estende-se ao controle dos recursos. Para 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) soma R$ 4,96 bilhões. Embora todos os partidos recebam uma cota mínima, o grosso do montante é distribuído com base no tamanho das bancadas no Congresso. Assim, siglas como o PSOL (R$ 131,5 mi), PCdoB (R$ 60,5 mi), Cidadania (R$ 60,1 mi) e PV (R$ 45,1 mi) operam com orçamentos significativos, mas que empalidecem diante das cifras bilionárias ou estratosféricas de seus aliados maiores.
A armadilha das federações é que, uma vez dentro, a saída precoce acarreta sanções graves, como a perda de acesso ao fundo partidário por todo o período restante. Presos por um “casamento” jurídico, os partidos menores correm o risco de chegar ao fim de 2026 como meros apêndices das grandes siglas.
O canibalismo político é, portanto, o preço amargo da sobrevivência institucional. Resta saber se, nas próximas eleições gerais, essas legendas conseguirão reafirmar sua relevância ou se serão definitivamente engolidas pelo peso das estruturas majoritárias com as quais decidiram caminhar.