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Em entrevista de 75 minutos ao The New York Times, senador afirma que organizou sozinho sua chegada aos Estados Unidos, questiona o resultado das eleições brasileiras e admite que pretende continuar atuando politicamente mesmo estando em Miami.

O senador Flávio Bolsonaro concedeu sua primeira entrevista desde que deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos. Em uma conversa de aproximadamente 75 minutos com o jornal americano The New York Times, publicada na quinta-feira (5), o parlamentar falou sobre as circunstâncias de sua saída do país, as investigações que enfrenta, a derrota eleitoral para Luiz Inácio Lula da Silva e seus planos para o futuro político.

Uma das declarações que mais chamaram a atenção foi a respeito de como conseguiu chegar a Miami. Flávio afirmou que organizou toda a viagem por conta própria, negando ter recebido ajuda de governos estrangeiros ou de autoridades americanas.

Segundo o senador, a decisão de deixar o Brasil foi tomada de maneira espontânea, em conjunto com sua esposa. Questionado sobre os detalhes do deslocamento, que teria percorrido aproximadamente 8 mil quilômetros e passado por países da América do Sul, ele deixou claro que não pretende revelar como conseguiu realizar a viagem.

“Como cheguei aqui, vou levar isso comigo para o túmulo”, afirmou.

A declaração contrasta com informações anteriores divulgadas pelo próprio jornal americano, segundo as quais um funcionário da Casa Branca teria participado da organização do voo que o levou a Miami, enquanto a entrada nos Estados Unidos teria recebido autorização direta do presidente Donald Trump.

Saída do Brasil e conversa com Jair Bolsonaro

Durante a entrevista, Flávio relatou que sua decisão de deixar o país ocorreu depois de receber a informação de que teria 24 horas para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras.

Segundo sua versão, o episódio aconteceu na manhã seguinte à derrota eleitoral. Antes de partir, ele teria conversado reservadamente com seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que estaria emocionado com a situação.

Flávio contou que o pai o chamou para uma conversa e perguntou se ele compreendia o que as autoridades pretendiam fazer.

O senador afirmou que respondeu estar preparado e consciente das medidas que precisava tomar. Ele também negou que os dois tenham discutido um plano de fuga naquele momento.

Horas depois, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que pretendia cumprir a determinação de entregar seus documentos. Na gravação, chegou a declarar que nunca havia pensado em deixar o Brasil.

Entretanto, pouco depois, desapareceu da vida pública e reapareceu em Miami aproximadamente 42 horas mais tarde.

Críticas ao Judiciário e investigações

Na conversa com o jornal americano, Flávio Bolsonaro voltou a defender sua inocência e criticou a atuação do Judiciário brasileiro.

O senador afirmou que acreditava que sua permanência no país poderia resultar em prisão. Também classificou determinadas decisões judiciais como excessivamente rigorosas e motivadas por interesses políticos.

A reportagem destaca que Flávio enfrenta investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção. Ele, entretanto, não havia sido formalmente acusado de crimes no momento da entrevista.

Outro ponto destacado é que o encerramento de seu mandato parlamentar, previsto para o início de 2027, poderá representar a perda da imunidade parlamentar, deixando-o sujeito a eventuais processos nas condições previstas pela legislação.

Flávio volta a questionar a vitória de Lula

Mesmo depois de seu próprio partido ter reconhecido o resultado eleitoral, Flávio Bolsonaro voltou a contestar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

O senador classificou o resultado como matematicamente impossível, mas não apresentou provas que sustentassem suas suspeitas.

Durante a entrevista, também questionou os gastos do governo durante a campanha e voltou a levantar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas.

Flávio ainda criticou a prorrogação do horário de votação em determinadas localidades, alegando que a medida poderia ter beneficiado seu adversário.

Entretanto, a reportagem ressalta que a alteração ocorreu após dificuldades enfrentadas por eleitores em algumas regiões, incluindo problemas provocados pelas chuvas e atrasos no transporte público.

Segundo os dados apresentados pelas autoridades eleitorais, a medida envolveu aproximadamente 34 mil votos, enquanto a diferença entre Lula e Flávio chegou a cerca de 4,4 milhões de votos.

O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou questionamentos sobre a integridade do processo, e observadores internacionais também reconheceram a regularidade da votação.

Ao ser questionado sobre suas acusações, Flávio admitiu que não tinha como comprovar suas suspeitas de maneira definitiva.

Relação com Donald Trump e planos nos Estados Unidos

Outro assunto importante foi sua relação com o presidente americano Donald Trump.

Flávio agradeceu ao republicano por permitir sua permanência nos Estados Unidos e evitou fazer críticas ao fato de Trump não ter declarado formalmente apoio à sua versão sobre o resultado eleitoral brasileiro.

O senador afirmou considerar correta a postura do presidente americano de não tomar partido publicamente.

Segundo a reportagem, Flávio, sua esposa e suas duas filhas receberam autorização para permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, em uma condição migratória geralmente concedida por razões humanitárias.

A família ainda não teria definido onde pretende estabelecer residência definitiva.

O parlamentar também demonstrou interesse em continuar articulando politicamente com aliados brasileiros, mesmo estando fora do país.

Entre suas prioridades estão a defesa de mudanças na legislação penal, a redução da maioridade penal e a busca por anistia para seu pai e para os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.

Questionado sobre a possibilidade de pressionar o governo americano a adotar novas medidas contra o Brasil, Flávio evitou apresentar uma resposta direta.

Futuro político e possibilidade de candidatura

Apesar da mudança repentina para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro não descartou retornar à política brasileira.

O senador afirmou que pretende continuar sua trajetória política a partir do território americano, pelo menos temporariamente, mas deixou aberta a possibilidade de disputar novamente uma eleição caso surja uma nova oportunidade.

A entrevista mostra que, mesmo diante das dificuldades enfrentadas por sua família e das investigações em andamento, Flávio não pretende abandonar completamente sua atuação política.

A saída do Brasil, entretanto, abre uma nova fase de incertezas sobre seu futuro, especialmente diante da possibilidade de perder a imunidade parlamentar com o encerramento de seu mandato.

A declaração de que pretende guardar para sempre os detalhes de sua viagem a Miami deixa uma das principais perguntas sobre sua saída do Brasil sem resposta: quem realmente participou da operação que permitiu sua chegada aos Estados Unidos?

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